quarta-feira, março 08, 2006

De domingo (madrugada):

1. Estou debaixo da minha manta de cores mornas.
2. Tento que a minha manta se me agarre aos pés, pelo chão friorento.
3. Tento-me agarrar ao teclado e ser a manta em seu torno, mas não consigo assentar os pés.
4. Finco-me, hirto como os meus pés frios, e debruço-me sobre a luz do monitor.
5. Envolvo o teclado de noite, enquanto procuro as teclas para me aquecer.
6. Os meus pés tremem, friorentos pelo chão.
7. Em espiral de inércia, contorno o teclado enquanto o monitor arrefece.
8. Ironizo-me manta de inércia sem teclado.
9. Faço tenções de me ironizar no teclado, cobrindo assim a noite irónica.
10. Ironizo-me repórter, face a um monitor que emite frio, de tão parado.
11. Os meus pés fincam-se num chão não envolto em manta.
12. Arrefeço de fora para dentro, coberto de um teclado, e sou o reflexo de um monitor.
13. Envolvo a manta com a minha inquietude de teclas por premir no escuro.
14. Quase adormeço no calor da manta estática.
15. Quase que sonhando, recordo-me de mim, morna manta de tão frio.
16. Cozinho a escrita em lume brando com uma manta de objectividade.
17. Quase que desperto, escrevo a comunicação no teclado da cozinha.
18. Monitorizo a lanterna com que ilumino as teclas, atento.
19. O monitor nocturno fita-me desafiante.
20. O frio dos pés recorda-me também de mim, arrefecendo a manta de sonho pontas de dedos acima.
21. Observo a escuridão da manta de propósitos, e o monitor fita-me desafiante.
22. O brilho da lanterna fraca e intermitente recorda-me de mim, e as teclas primem-me um desabafo.
23. Ilumino, fraco e intermitente, o monitor frio.
24. Tremo de clareza nocturna face ao brilho das teclas.
25. Escureço o monitor enquanto sou uma luz de teclado, quase real.
26. A manta virtual embrulha-me os pés no chão real.
27. Presenteio-me com a visão enquanto me esqueço de um monitor de luz real.
28. Vejo através de mantas do passado.
29. O frio dos meus dedos visionários recorda-me de mim, e a minha manta de luz escurece-se.
30. Choro as minhas quantidades, fragmentadas sob uma manta de desinteresse solitário.
31. As minhas lágrimas são, na verdade, as teclas vãs e a cor baça da minha manta.
32. Choro o chôro, o verdadeiro, esmagado por debaixo de uns pés gelados.
33. Compilo-me, quase envolto em lágrimas frias, numa manta de numeração insuficiente.
34. Recolho o teclado, desligo o monitor e apago-me na noite.